segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sai capeta, êta vida besta

Aconteceu na cidade de Floresta, Paraná. Cada vez que me lembro do fato, mais inimaginável se torna o acontecido. Cidade pacata. Calmaria tanta, que dá para escutar o farfalhar de saúvas carregando folhas para o formigueiro. Para onde se olha, não se vê moradores, não que eles não existam, mas o mormaço do final da tarde tira a vontade de qualquer um transitar pelas calçadas e ruas do município. Nada, estritamente nada acontece. A marocagem é o único esporte praticado pela população que não chega a três mil moradores.

Difícil então, acreditar que algo de importante ou de inusitado aconteça à noite na cidadezinha. Moradores vindos de cidades maiores, vizinhas ao pequeno município, chegam do trabalho, param na bodega e compram um pedaço de carne, dão uma talagada de pinga e em questão de minutos o silêncio volta a incomodar ouvidos ansiosos por zum-zum, lógico, que não seja de grilos, sapos, o som tristonho do bovino e tantas outras sem novidades do local.

Lá pelas 20h, depois do banho e do jantar, religiosos se aglutinam numa casa improvisada do vilarejo. Lá pelas tantas, começa a retirada do demônio incorporado nos fiéis. Os gritos mais lembram um show de rock, entrecortados pelo vozeirão ao microfone do pastor, que berra a frase: sai capeta, em nome de Deus. O eco se espalha em várias direções do casario de madeira, prova existencial da colonização inglesa. Quando as vozes angustiadas chegam do outro lado da cidade, já começa o burburinho mentiroso de que alguém levou um tiro de escopeta.

E não é que a história se tornou num caso de polícia. A cena que irei narrar é inimaginável, além de acontecer com personagens errados. Explico. Quando se lembra de polícia, se tem a ideia de que malandros correm, fogem ou atiram contra policiais. Agora, imagine uma viatura passando apenas na frente do templo dos religiosos e, derrepente, todos saindo correndo por causa da presença da viatura. Correria. Gritaria. Eu vi isso. Num minuto só o pastor ficou segurando o microfone e até os demônios, suponho, puxaram o carro porque não devem ser bestas, aliás, são bestas, porém num outro sentido. No minuto seguinte o silêncio toma conta de tudo e os olhos ficam vagando pelas ruas, como um boi a olhar o vazio.

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