sábado, 26 de abril de 2008

Veneno em dólar, alimentos em real

Recentes dados na área agrícola demonstraram que os agricultores contabilizam uma divida de 87 bilhões de reais, em 3 milhões de transações bancárias. A dívida do setor agrário denuncia que algo está errado. Batemos recordes na produção de alimentos, entretanto, os agricultores padecem sem saber quem é seu verdadeiro inimigo, o banco ou a revenda de insumos.
Ensaiando uma primeira resposta, o agrotóxico e as sementes transgênicas dariam a primeira pista sobre os insumos, caros aliás, que o agricultor tem que desembolsar a cada safra.

Mas o detalhe é bem outro: a multinacional dos insumos, maquinários e implementos agrícolas cobra em dólar e o agricultor vende em real sua produção para as mesmas empresas que oferecem toda parafernália agrícola e venenos. O cerco do capital é claro e só não o entende quem é ignorante, ou sabe, e então passa a ser um criminoso da vida.

Os tentáculos das indústrias do veneno têm como matiz energética o petróleo. Não é preciso nenhum exercício intelectual para deduzir que estes interesses são contra a energia limpa, a biomassa. São contra, por conseguinte, a produção orgânica de alimentos, ao manejo de culturas e do solo.

Na década de 60, estas mesmas multinacionais do veneno diziam que o agrotóxico seria bom para matar a fome da humanidade. Com os transgênicos agora, rezam a mesma cantilena, acrescentando que os que são do contra, não querem o avanço tecnológico. Os mitos dos transgênicos são derrubados por cientistas sérios pelo país afora, que denunciam o uso maior de agrotóxicos, contaminação genética, polinização cruzada e perda de biodiversidade.

O Paraná, o que não deve ser muito diferente em outros estados da federação, não tem uma política eficiente de acompanhamento dos órgãos públicos, no que diz respeito à fiscalização da venda de veneno agrícola. O Conselho Regional de Engenharia e Agricultura do Paraná (Crea-PR), desde o segundo semestre de 2005, não fiscaliza mais as propriedades rurais e os profissionais agrônomos do Paraná, por conta de um impedimento legal do Ministério Público Federal. A decisão federal entendeu que a atividade agrícola por ser milenar, não necessita de orientação técnica para os agricultores plantar. Sem comentários. Diga-se, antes que se cometa uma injustiça, que o Ministério Público Estadual pensa totalmente o contrário.

Os próprios órgãos de Saúde do Estado do Paraná dão conta que o número de intoxicações agudas de agricultores subiu 20% entre 2006 e 2007. O descontrole da Secretaria da Agricultura e Abastecimento em fiscalizar é patente, o órgão usa caneta e papel para anotar e calcular milhões de litros de veneno, para ficar neste exemplo.

Seria irônico se não fosse verdade. Esperamos a situação chegar num ponto insuportável, a velha política do quanto pior, melhor. Estamos assistindo os “caneteiros” assinando autorização para venda indiscriminada de agrotóxicos a torto e a direita, pressionados pelos interesses comerciais e econômicos das multinacionais do veneno. Estamos matando nossa oportunidade de sermos a Neo Roma deste planeta, na produção de energia limpa, matando a fome do mundo e criando empregos para todos que moram por estas bandas. De quebra, caso interesse, deixamos nosso mundo mais limpo.

Um comentário:

Ensino disse...

Não é de se duvidar, o veneno está em toda parte em nossa sociedade, ainda mais quando envolve lucro. Estou muito preocupado com esta história, que somada ao superaquecimento do planeta, nos coloca em permanente perigo. Valdir - Paraná.