quinta-feira, 3 de julho de 2008

Olha aí, é o meu guri

Recentemente, vi inúmeras matérias sobre franquias de jovens promessas para o futebol. O que é, no mínimo, um castelo de areia para a infância brasileira. A franquia do São Paulo e do Flamengo chega a ter em suas fileiras centenas de garotos, sendo que apenas uma dezena, quando muito, atinge o futebol profissional. A estrutura para jogar bola é imensa, em contrapartida, falta apoio para quem fica pelo caminho. As franquias oferecem estrutura futebolística, porém os jovens que não conseguiram um lugar ao sol no futebol estarão à mercê da sua própria sorte e, ainda, durante o período que treinam nestas franquias nada ganham para ajudar no sustento de suas famílias, humildes em sua grande maioria.

Tiro de Misericórdia

A exploração destes menores sustenta uma rede muito grande de interesses, quase todos ligados a quantias milionárias na venda de jogadores para times de projeção no exterior. Estes supostos “descobridores de talentos” não dão estrutura para os jovens que não demonstraram ter talento para a bola, o mínimo seria a escola ou, quem sabe, uma formação técnica profissional, ou até um emprego. Ao invés disso, jogam estes menores nas periferias da cidade, deixando para a sociedade o resultado desta espoliação humana.
Se levarmos em conta que a capacidade instalada de estádios e o bolo publicitário do futebol no Brasil é a mesma encontrada em países como a Itália e França, o que estas franquias fazem é a face mais moderna da escravização de gente. Isto sem falar dos direitos de imagem pagos pelas TVs aos clubes brasileiros. Não oferecem escola, salários, benefícios para a família do menor e por aí vai. Ganham milhões e, depois, por ser cômodo ou até um mote de sua predação humana, creditam todo este problema à classe política.
A face desta espoliação fica mais evidente, quando, por exemplo, se sabe que um país como a Turquia, bem menor em seu mercado publicitário e na capacidade instalada de estádios, contrata grandes jogadores do nosso futebol bretão a peso de ouro. O que se quer refletir com este último exemplo, é que o futebol brasileiro é dominado por pessoas que lidam com o esporte não como negócio, mas como negociata para seus próprios interesses.
A má administração somada ao descaso das autoridades, a corrupção, quando não perdões de tributos escandalosos aos clubes, abre caminho para esta situação de exploração infantil. Em matérias que tenho lido sobre o assunto, falta este viés, falar com a Promotoria da Infância, enfim, evocar o Estatuto da Criança e do Adolescente, para saber porque estes órgãos não têm atuado neste sentido. Não é só quando o poder público não oferece escola que devemos noticiar tal fato, penso eu, mas também em outras esferas da vida humana, principalmente, da vida brasileira no tocante ao futebol, devemos apontar e mostrar o que fazem os predadores da infância nacional. Depois não adianta reclamar que o brasileiro só pensa em futebol, no caso citado, ele é escravizado antes de aprender a pensar.

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