sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O relativismo branco como forma de racismo

Ora alguns querem fazer acreditar que o racismo é um processo metafísico, cármico portanto, que estaria nas pessoas de espírito baixo ou pouco iluminadas, carentes de sabedoria espiritual. Ora alegam que ter consciência política da discriminação racial e formar uma organização é coisa de racista. Esses argumentos apontam que a raça negra precisa ganhar seu galardão espiritual, e adiciona a esta tese outras raças, na certa para criar um falso axioma, qual seja, de que todas a raças são violentamente racistas quando têm baixo espírito.

Venhamos e convenhamos, caso alguns não saibam, a raça negra cultua espíritos da natureza e prega a harmonia com eles, ambientalmente falando, milenarmente pregam a convivência com esta grande astronave chamada Terra. Os brancos, para ficar na religião Católica, cometeram grandes morticínios em nome do Pai. O papa até pediu perdão pelos crimes de racismo da Igreja contra negros, mas isto não repõe no mundo físico as diferenças sociais e econômicas impostas pelos brancos aos negros. Afinal de contas, quem continua a ter baixo espírito?

Quando acontecem políticas afirmativas que levam a inclusão do negro no processo de ensino e de oportunidade de emprego, daí sim, o espírito dos brancos deve se elevar neste País. Como branco que sou, não vejo no negro qualquer traço de inferioridade, a não ser aqueles impostos por séculos por nossa sociedade veladamente racista. É só pegar os números sociais para entender o que espíritos dito iluminados são capazes de fazer com uma raça.

Dados da educação, por exemplo, demonstram que o negro têm quando muito, em sua grande maioria, o ensino fundamental. Brancos recebem melhores salários exercendo a mesma função dos negros. Mulheres negras, em sua esmagadora maioria, exercem funções subalternas, ganhando menos, em bancos, lojas e em toda parte que envolva a aparência ideal imposta pela sociedade branca. Pergunto outra vez: Quem tem espírito sem luz nesta história?

A intolerância racial apontada como sendo produto de espírito de baixa luz é no mínimo uma excrecência para cabeças mais arejadas. Apanhe e morra nos porões sufocantes dos navios tumbeiros de séculos atrás. Tumbeiro vem de tumba e era o navio carregado de escravo, que trazia em média mil negros da África, quando muito chegavam aqui 300. O resto morria de maneira fétida e acometida pelo desespero, pela fome, pelo suicídio e por assassinatos na busca de espaço no porão da embarcação. Hoje, por exemplo, tenho informação privilegiada que nas favelas de Londrina morre a maioria da população, jovem, negra e pasme, por assassinato. Inevitável questionar novamente: quem cultua o espírito baixo por séculos?

Saravá meu pai Oxalá, Oxossi e Ogum, como dizia Vinícius de Moraes. Poderia entrar no mérito do que vem a ser religião e espiritualidade, mas penso que há pobreza de espírito nesta diferenciação. Vou mais a frente, o argumento reside em dizer que a religião cometeu absurdos, mas quem cultua somente o espírito não tem nada a ver com as barbaridades cometidas pelas religiões neste País. Ontem católicos, hoje condenações judiciais de alguns seguimentos evangélicos pela demonização da cultura negra. A religião, além do religare com Deus, seria ou não um ritual de quem busca a espiritualidade?

Lembro, tempos atrás, que ouvi de um filósofo (sabido e não sábio) que existia uma ética superior para que os militares torturassem pessoas na Ditadura. O argumento da caserna era o tal do fantasma do comunismo, que comia criancinha e tinha que ser estirpado. Ter espírito iluminado é também clarear as sombras, mesmo que a luz mostre coisas desagradáveis, mentiras seculares e holocaustos irreparáveis. Outra questão é inevitável: é preciso ter espírito iluminado para aguentar tantos séculos de morte e desalento? E esta história de luz esconde uma argumento perverso: luz significaria claridade, brancura, branco? Sem luz seria...

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